Novos Tempos
Silêncio cúmplice ou voz incómoda
Sempre que a Igreja Católica se pronuncia sobre temas sociais ou políticos em Portugal, repete-se o mesmo refrão: “A Igreja não deve meter-se na política.” A frase surge tanto de sectores laicistas como, curiosamente, de alguns católicos incomodados. Mas talvez a pergunta esteja mal colocada. A questão não é se a Igreja deve falar de política, mas se pode deixar de falar quando está em causa a dignidade da pessoa humana.
Em Portugal, a Igreja não disputa eleições, não redige programas partidários, nem indica em quem votar. Mas seria uma leitura redutora - e até ingénua - pensar que isso a dispensa de intervir no espaço público. A Doutrina Social da Igreja recorda que a fé cristã tem, inevitavelmente, consequências sociais. Onde há pobreza estrutural, injustiça laboral, exclusão habitacional, desprezo pelos idosos, instrumentalização dos migrantes ou fragilização da vida humana, o silêncio não é neutralidade: é cumplicidade.
O contexto português torna esta reflexão particularmente urgente. Vivemos num país cansado, com muitos jovens sem horizonte, famílias esmagadas pelo custo da habitação, trabalhadores empurrados para a precariedade e uma crescente indiferença perante os mais frágeis. Ao mesmo tempo, o debate público tende a radicalizar-se: ou tudo é ideológico, ou tudo é reduzido a números e slogans. Falta densidade ética, memória histórica e horizonte humano.
É precisamente aqui que a Igreja pode - e deve - ser uma voz incómoda. Não para impor soluções técnicas, mas para lembrar princípios: a centralidade da pessoa humana, o primado do bem comum, a solidariedade intergeracional, o cuidado com os mais pobres, a rejeição da cultura da morte e do supérfluo. Quando um bispo fala de salários indignos, quando a Cáritas denuncia novas formas de pobreza ou quando um pároco se indigna com a exclusão social na sua paróquia ou bairro, isso não é partidarismo: é o Evangelho aplicado à realidade.
O problema, muitas vezes, não é a Igreja falar demais, mas falar pouco ou mal. Ou porque se refugia num discurso vago e inofensivo, ou porque reage apenas quando se sente atacada. Uma Igreja que só intervém para se defender perde credibilidade; uma Igreja que fala em nome dos que não têm voz ganha autoridade moral, mesmo que incomode.
Portugal precisa de uma Igreja livre: livre dos partidos, mas não livre da consciência; distante do poder, mas próxima do sofrimento real. Num tempo em que muitos confundem neutralidade com indiferença, talvez seja tempo de recuperar a coragem de uma palavra clara, serena e profética.
Porque, no fim, não se trata de a Igreja fazer política. Trata-se de não deixar a política sem alma.
Sérgio Carvalho
novostempos.sergiocarvalho@gmail.com