Novos Tempos

O Papa e Gaudí: quando a arte se torna evangelização viva

 

A arte é mestra da fé. Esta convicção, que atravessa séculos de cristianismo, ganha hoje um rosto concreto na fase final das obras da Basílica da Sagrada Família, em Barcelona. Aquilo que durante décadas foi um símbolo de obras inacabadas, de espera e até de fragilidade, torna-se agora um testemunho vivo de perseverança, de visão espiritual e de beleza que evangeliza.

Quando Antoni Gaudí assumiu o projeto, não quis apenas desenhar uma igreja: quis erigir uma catequese em pedra. Cada uma das fachadas, cada coluna, cada torre, cada jogo de luz foi pensado como uma linguagem que conduz à contemplação do mistério cristão. A Basílica da Sagrada Família não se visita apenas; reza-se nela com os olhos. Numa cultura saturada de ruído e superficialidade, a sua verticalidade aponta para o essencial: Deus é digno de beleza.

Como recordava São João Paulo II na sua Carta aos Artistas, em 1999, “a beleza é chave do mistério e apelo ao transcendente”, e por isso a arte tem a capacidade única de tornar visível o invisível e de conduzir o coração humano a Deus. Esta visão ecoa na tradição mais antiga da Igreja: São João Damasceno afirmava que “a imagem é uma via para a contemplação do divino”, reconhecendo nas formas visíveis uma verdadeira teologia em cores.

A conclusão das obras, prevista para os próximos anos, é um sinal de esperança. Num tempo em que tantas obras humanas ficam inacabadas (relações, compromissos, projetos comunitários), a persistência deste templo recorda-nos que aquilo que é fundado na fé e no serviço ao bem comum pode atravessar gerações. Gaudí sabia que não veria a obra concluída. Trabalhou para o futuro, confiando que outros a continuariam. Há aqui uma lição espiritual e cívica: construir para além de nós mesmos.

Mas a conclusão da Sagrada Família não é apenas um acontecimento arquitetónico; é um acontecimento cultural e eclesial. Numa Europa muitas vezes cansada da sua matriz cristã, esta basílica levanta-se como um convite silencioso a redescobrir a fé não como peso do passado, mas como fonte de sentido. A arte, quando é autêntica, não se impõe: propõe. E a Sagrada Família propõe Deus através da beleza.

Como sublinhou Bento XVI, ao dedicar o templo em 2010, “Gaudí, abrindo o seu espírito a Deus, foi capaz de criar neste espaço uma síntese de natureza, Escritura e liturgia”, mostrando que a beleza nasce quando a fé se torna forma. É a chamada via pulchritudinis (caminho da beleza), caminho de evangelização especialmente necessário no nosso tempo.

Neste contexto, ganha ainda maior relevância a anunciada visita do Papa Leão XIV a Espanha, em junho, e no ano do centenário da morte de Antoni Gaudí, recentemente declarado venerável pela Igreja. Este reconhecimento eclesial não é apenas uma homenagem póstuma a um génio da arquitetura; é o reconhecimento de uma vida vivida como oferta, onde a criatividade foi expressão de santidade quotidiana.

A presença do Santo Padre em Barcelona, junto da Sagrada Família, será mais do que um acontecimento mediático: será um gesto profundamente simbólico. A Igreja universal reunir-se-á num templo nascido da fé de um artista que agora é proposto como exemplo de vida cristã. Arte, santidade e missão encontram-se num mesmo lugar.

Num momento em que tantas cidades competem por eventos mediáticos, Barcelona possui um tesouro que não se esgota em turismo: possui um espaço que pode tocar o coração humano. Se a arte é mestra da fé, então a Sagrada Família é uma das suas catedrais pedagógicas mais eloquentes do nosso tempo.

Que a sua conclusão não seja apenas o fim de uma obra, mas o início de uma nova etapa de encontro entre cultura e fé. E que, sob o olhar do Papa e de milhões de peregrinos, entrando sob aquelas abóbadas luminosas, o homem contemporâneo redescubra, talvez sem dar por isso, que a beleza ainda conduz a Deus.

 

Sérgio Carvalho

novostempos.sergiocarvalho@gmail.com

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